11.10.09

crime passional nº 2 - espinha de peixe

gostava sempre do peixe torrado, fritinho tanto que ficava seco pra comer. caprichei naquele dia, traíra fresquinha comprada na bodega do cavalcante. ele, como sempre, chegou bêbado e fedendo da noite anterior. pegou com a mão, encheu de molho de pimenta e traçou a primeira com doses de cana. na segunda, entalou. começou tossindo... tossindo... e tossiu muito! espinha de peixe atravessada na garganta. foi ficando vermelho depois sem cor. caiu. terminei de ler o signo e cheguei perto pra ver se havia acabado. restava um olhar derradeiro esvazindo-se com o último suspiro. morreu, tadinho! enfiei o dedo na goela, tirei a bicha que tava atravessada. essa, haveria de guardar como lembrança. troféuzinho singelo porém sincero!

crime passional nº 1 - pudim de rapariga

dormia que roncava. primeiro uma, depois duas, três, quatro. na quinta se estrebuchava no sofá rasgado da sala feito peru com o pescoço torcido em véspera de natal. agora, morria aos poucos. a sexta gota do oléo cozido no ouvido esquerdo foi só pra ter certeza. e foi bem assim, sem culpa nem piedade. só por causa do pudim rejeitado na noite anterior. "garanto que se fosse da rapariga ele gostava. do meu, reclamou da pouca calda. bem feito! agora quero ver se tem pudim de rapariga no inferno."

29.9.09

esquinas perdidas, o assassino, a menina

numa dessas esquinas perdidas o assassino esperava pela vítima futura. o tênis azul com listras brancas apertava um pouco. no mais, o mesmo de sempre: calça jeans envelhecida, camiseta preta hering tamanho p e o mp4 com as canções de beth gibbons.
perto de uma dessas esquinas perdidas a menina caminhava pensando no futuro amor. o tênis vermelho no tamanho certo, jeans envelhecido colado no corpo e camiseta branca amélie poulain.
enquanto isso, a cidade anoitecia e o sol desistia de permanecer no alto, imponente. a lua vinha aos poucos, delicada e silenciosa enquanto a menina caminhava e o assassino, paciente, esperava.

5.9.09

doze suspiros

1. agora somente histórias mais calmas, a voz de hope sandoval e a lembrança distante quase sumindo do último olhar.

2. havia um tênis pendurado nos fios da energia elétrica e próximo a ele galhos de uma árvore com pouco tempo de vida. o cupim subia aos montes e cair era uma questão de tempo.

3. o velho par de sapatos talvez um dia tivessem sido calçados por alguém que, como ele, sonhara com uma vida de emoções parcas mas sinceras.

4. na quadra velha, quase sempre vazia, água da chuva acumulada que aos poucos virava lama.

5. ao longe, uma antiga canção de odair josé e, alguém feliz que cantava enquanto varria o chão provavelmente alheio.

6. ao redor, a velha estante repleta de filmes dos anos 40, vinis de cantoras negras depressivas e livros de virginia wolf.

7. sentia falta! saudade! sabia que ele não voltaria mas não conseguia conter o sobressalto de todas as manhãs quando, ao acordar, pensava ter sido um sonho.

8. então as lembranças voltavam ao poucos com a precisão de todos os fatos. morrer nunca seria uma coisa simples. ela sabia disso e sofria por ter a certeza.

9. e esperava cada dia passar, cada noite chegar para dormir e acordar novamente, pensando ter sido apenas um sonho.

10. e as músicas não eram mais suficientes, os comprimidos não surtiam efeito e o tempo passava sempre com maior lentidão...

11. sempre lento, lento...

12. ... até parar de passar um dia
.

26.8.09

17:09

depois que a chuva passa o clima fica meio assim, indefinido,
um pouco triste e tímido pela incerteza do que vem pela frente.
e nas ruas as pessoas parecem indiferentes
à dor do homem que acabara de cair...
aliviado e cínico como o palhaço no ato final.

18.8.09

na velha olivetti cansada de palavras tristes

"sim, veneno se toma aos poucos, sorvendo-o lentamente, retratando com elegância aquele instante onde algo se define.
é quase como um bom vinho quando primeiro sente-se o cheiro para depois passar ao primeiro gole.

um bom veneno não deve ser tomado de uma vez só nem ter o tratamento do tiro certeiro, entre os olhos, sempre rápido e indolor."
---
depois de escrever isso na velha olivetti cansada de palavras tristes o escritor dos poemas medianos levou o cálice à boca onde singelas 12 gotas temperavam o drink à base de vodka e suco de laranja... simples assim.

10.8.09

vermelha, vermelho

1.
viu no rosto a lágrima vermelha
que corria, escorria

e borrava a maquiagem de tons azuis e amarelos...
um pouco velha.

espelho partido em oito partes

como o coração vencido,
destroçado, vermelho,

que pulsava como a lágrima

que manchava o all star branco,

agora com detalhes
em vermelho, azul, amarelo...


2.
e respirou pela última vez,

com o coração destroçado e triste

como velho que olha o horizonte

em dia chuvoso.

5.8.09

patsy cline e o sol de meio-dia

olhava para o alto e o sol quente fervia o sangue
que escorria e fritava no asfalto em pleno meio-dia.

patsy cline em seus sonhos mais doces

dizia para que ele acreditasse mais um pouco.

a partir dali, só pensava que queria um rosto amigo,

uma expressão familiar entre os curiosos

que olhavam enquanto agonizava.

sim, agonizava...

patsy cline e o sol quente de meio-dia.

no bolso esquerdo da calça xadrez

um bilhete de ruth

que dizia apenas "valeu querido, quem sabe outro dia".

1.8.09

lâmina fria, entre a terceira e a quarta costela

1.
havia um tempo que nunca passava enquanto gotas de sangue manchavam seu adidas branco e sua calça amarela um pouco suja da noite que acabava lentamente...

2.
ela não sabia se deveria prolongar o tempo da lâmina fria e insensível que perfurava entre a terceira e a quarta costela.

3.
e nem lembrava dos amores perdidos ou abandonados depois que sempre perdia a paciência e o arrependimento era quase sempre o que restava.

4.
resolveu acabar o texto pois não queria participar daquela agonia que não teria mesmo fim.

27.7.09

queria assim

apressou o passo, quase correndo.
na esquina, encontraria o assassino
com as flores partidas e olhar piedoso.
queria assim...
"oi", abraço afetuoso
talvez beijo na boca
depois a lâmina fria
perfurando o coração.

26.7.09

fim do dia


e ali, perdida
entre os cães sem dono,
ela olhava para a frente
e via o mar solitário,
com sua imensidão
de água
e desesperança
.


24.7.09

uma lembrança indolor pelos melhores dias

silenciosamente, optou pela ausência de sentimentos. colocou 40 gotas na dose de gim e a melhor música dos smiths. disse que o amava e que seria pra sempre o seu único amor. acariciou os cabelos, preferiu primeiro fazê-lo dormir. cantou baixinho, cada palavra, cada verso... sussurrou... queria que assim fosse, uma lembrança indolor pelos melhores dias. não duvidava do seu amor e aquilo era tudo que a fazia feliz. mas a felicidade meu bem, nos momentos difíceis, era algo suspeito e complicado de se lidar.

19.7.09

cortina velha, suja, grades enferrujadas e esperanças juvenis

da janela, depois da cortina rasgada e suja, das grades enferrujadas, via fios elétricos com tênis, restos de pipas e esperanças juvenis penduradas e abandonadas. existiam árvores antigas, corroídas por cupim e paredes descascando. nos fins de tarde, quase sempre, podia ver o sol se por. com ele, a noite trazia velhos conhecidos e quase nunca sentimentos mais felizes. ela olhava pra baixo e agradecia, sempre, às grades enferrujadas por estarem ali nos piores momentos, quando a música ficava mais triste e os amores fortuitos da madrugada teimavam em ir embora. alguns, deixavam bilhetes de adeus, outros nem isso. nela, sobrava o hálito do vinho barato, o corpo maculado, a alma ainda mais dilacerada e as flores que nunca chegariam na hora do café da manhã.

16.7.09

audrey hepburn na janela de baixo

sonhava assim,
audrey hepburn na janela de baixo
cantando moon river.
do amor, queria que fosse eterno,
único e indivisível.
poderia doer, até rimava.
mas o olhar seria só dele,
os passos da dança no salão,
o gole de cerveja quente,
a marca do batom vermelho no copo,
a respiração egoísta
entre a nuca e a omoplata.
procurava nos filmes,
nos romances de jane austen
e nas músicas de nina simone.
sonhava assim, era pouco criativo.
toalha enrolada na cabeça
e um violão desafinado.
moon river / wider than a mile
i'm crossing you / in style some day
oh, dream maker.
então tocaria a campanhia
e o entregador de pizza
esboçaria um costumaz sorriso
simpático e sarcástico.
e aquela seria mais uma noite,
sem sono, sem amor,
sem audrey hepburn
na janela de baixo.

15.7.09

um pingo de chuva reticente, quase sem força

vodka orloff na mão direita e o controle na esquerda. entre um canal e outro, uma dose. enquanto isso, lá fora, um pingo de chuva reticente que teimava em correr livre do telhado até o asfalto velho e desbotado. uma vitrola, móvel surrado, decadente. "here is fruit for the crows to pluck, for the rain to gather, for the wind to suck...". ela gostava da billie, como gostava de sinatra na primeira fase e dos filmes de nicholas ray. não encontrara o homem da sua vida nem lembrava seus poetas preferidos. então restava pouco... entre um canal e outro, uma dose. enquanto isso lá fora, um pingo de chuva reticente, quase sem força.

12.7.09

frango assado, arroz e salada do almoço

disse que o amava, mais que tudo, que precisava dele para ser feliz e nem conseguia imaginar sua vida no futuro sem sua presença. porém, o boy talhado a ferro da academia balançava suas estruturas. disse assim, na lata. daí por diante uma série de confissões graves, outras nem tanto. ele ouviu, ouviu e ouviu. quando ela, cinquenta minutos depois parou de falar ele deu um leve sorriso. "terminou?". "acho que sim". ficou em silêncio, pensativo. cinco minutos. "não vai falar nada caralho?". "o que tem aí para jantar?". "frango assado, arroz e salada do almoço". "legal". ela deu um leve sorriso.

10.7.09

é assim que ela me faz bem

toda história de amor acaba mal. nem toda história de amor acaba mal. quase toda história de amor acaba mal. para ruth, nenhuma das alternativas.
para ela, não havia histórias de amor e, portanto, não poderiam acabar simplesmente pelo fato de nem começarem. ela sabia e por conta disso pouco esperava.
naquela manhã de domingo, como em outras, ela acordou com a sensação de que nem dormira. calçou os chinelos três números maior que o seu e só assim percebeu que não sabia onde estava.
olhou para a cama vazia e desarrumada, olhou para os lados... nada reconhecera.
saiu do quarto e andou pelo apartamento de paredes velhas, pintura decadente, inspiração pífia. pouca paixão, certamente. e tudo parecia ser extremamente previsível, os livros na estante derrubada, alguns cds e vinis, fitas k7.
aos poucos ruth foi lembrando como chegara até ali. tinha começado na sua recente porém intensa vida virtual. ruth não gostava. para ela, na virtualidade faltava paixão, de olhar nos olhos e ver a última piscadela da vítima agonizante, o sorriso amoroso da nova conquista, os dentes que trincam quando a raiva provocada é inapelável.
ele, ou talvez ela, deixara um bilhete e a porta aberta: "fui comprar cigarro, demoro pouco. por mim, melhor encontrar a casa vazia na volta porque é assim que ela me faz bem. beijos".

18.8.08

resolveu voltar...

resolveu voltar...
não para o mesmo lugar pois ali havia marcas de sangue ainda fresco das dores antigas que teimavam em machucar.

resolveu voltar...
não para ouvir a mesma música pois ela já havia sido ouvida pelas outras que haviam passado pela vida dele.

resolveu voltar...
para ver outros filmes, conversar outras coisas pois seus olhos haviam visto o que não gostava e dito palavras que não queria ouvir...
resolveu voltar, sim.
comprara uma arma nova e dessa vez não perdoaria qualquer deslize.
seria certeira como sempre, entre os olhos.
não teria piedade do escroto pois era uma nova mulher.
resolvida, altiva, digamos assim.

25.6.08

não suportou, fechou os olhos

sentou e ficou lá, parada, prendia a respiração o máximo que suportava. atingia o seu limite, tossia e tentava começar tudo de novo. aos poucos, foi cansando, cansando... forçou, atingiu o limite, sentiu dores. os pulmões pareciam inchados, doíam. prendeu a respiração outra vez, não suportou, fechou os olhos.

5.6.08

"ziggy played guitar..."

ziggy played guitar enquanto ruth virava a última gota de vodka no copo extrato de tomate. decadência absoluta, elegância mesmo assim. ruth havia ficado a noite acordada, resolvera beber tudo que via pela frente sozinha, sem ninguém pra falar, ou ver, ou ter que rir, essas coisas. queria ser a criança que um dia mataria o homem, queria, depois de bêbada, encontrá-lo e dizer tudo que sempre disse, de outras formas, dissimulada, intimidada. por fim, achou que não daria tempo, o sono chegara, o corpo pesava e ela talvez não conseguisse falar mais nada. língua enrolada, pensamentos confusos. ziggy played... guitar. caiu pro lado, dormiu, apagou, capotou como uma bêbada elegante e decadente ao mesmo tempo. enquanto dormia, o telefone tocou uma, duas, três vezes... ele queria dizer que a amava, que queria ficar com ela pra sempre e que precisava do seu perdão para morrer em paz. ruth não falou nada do que havia planejado. não ouviu nada do que sempre sonhara. enquanto ruth dormia, apagava, capotava como uma bêbada elegante e decadente ao mesmo tempo, ele puxou o gatilho e morreu sorrindo. era dela seu último pensamento.